Revista do NEFILLI

Núcleo de Estudos Filológicos, Lingüísticos e Literários – NEFILLI

O NEFILLI se propõe a ser um espaço virtual de articulação
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sábado, 31 de dezembro de 2011

Summing up of the article The Two Gentlemen of Verona by H. C. Goddard

GODDARD, Harold Clarke. The Two Gentlemen of Verona. In: The Meaning of Shakespeare. Chicago: The University of Chicago Press, 1970. v.I, p. 41-4. 

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                                                                                                      By Profª. Drª. Bárbara de Fátima.   



The Two Gentlemen of Verona is full noticed by the use of disguise in its script. The presence of a woman performing as a boy transforms the comedy in a real comedy because on the Elizabethan stage all women’s performance were played by men.

                       
                                      
                                    
 2  women

                                               
 1  men                              3  boys
         
In Twelfth Night, we have a female character called Viola, who in fact is an actor, and after playing as Viola, she disguised herself as a boy called Cesario in order to work as a page in the Duke’s house.

         The author describes two ways of examining The Two Gentlemen of Verona:

11-  It is a kind of premonitional work. The theme which is presented in this play is the same in Twelfth Night, that is, the use of disguise.  Julia and Viola dressed themselves as a boy, and this situation is much more detailed in Viola’s performance.

22- Irony – Another character who presents a great importance is Launce because as a slave he has the perception to describe both gentlemen: Proteus and Valentine in a very ironical way. Why are they called gentlemen? According to Launce’s description of Proteus, he is a terrible, selfish, and false man and Valentine is presented as a man without no desire, and his loyalty and constancy becomes himself in a neutral man. As a juvenile work, it shows a boring wit; an incredible end in relation to Proteus’ final performance; Valentine believes in friendship above love and Proteus differs from him because he believes in love above friendship.

According to the play, the gentlemen are two men who are presented by their differences in character, personality and performance. They do not present the qualities of perfect gentlemen; Antonio, the Duke, Sir Thurio, and mainly Sir Eglamour who is a coward and he proves that it is, when he leaves Silvia with the outlaws in the forest. But sarcastically Shakespeare calls them gentlemen. Why? Because they belong to the upper class of society, they are rich, while Launce and Speed are slaves; their thoughts and position in society give them no opportunity to become gentlemen.

         The happy ending of the play is described according to Renaissance principles of friendship and love. In this play, The Two Gentlemen of Verona, the author makes use of an ironical tone: the “gentlemanly” concepts here are material, physical not psychological or spiritual.  Valentine is the best example of these concepts. He is a good speaker, for that reason he is chosen the captain of the outlaws. 

         All the gentlemen and lords presented in Shakespeare’s plays are used in a very ironical way. Their positions on the plays do not require great effort. The noble title presented by them says everything.


quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Summing up of the article Coming of age: marriage and manhood in Romeo and Juliet and the Taming of the Shrew by Coppélia Kahn

KAHN, Coppélia. Coming of age: marriage and manhood in Romeo and Juliet and the taming of the shrew. In: Man’s estate: masculine identity in Shakespeare. London: University of California Press, 1981. p.104-118.
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By Profª. Drª. Bárbara de Fátima.


Shakespeare described his male character, Petruchio, the tamer of his wife, Kate, giving him the precious tools to achieve his main intentions: money, power, ambition. He spends the whole play trying to tame her using non-human techniques, mechanisms which cannot be applied even to irrational animals. Everything is against Kate. Her father accepts her marriage to Petruchio because he has financial interests. Kate is, before marriage, a product of parental irresponsibility and stupidity. She is unkind, bad-tempered, sharp-tongued, and non-affective. Here, she represents the outlaw feminine principle. Petruchio is violent, tyrant (mechanical taskmaster and he has the financial power). But at the end of the play Kate becomes a product of marital power and love, that is, docile, polite, and kind. Here she represents the inlaw feminine principle. Petruchio was conquered by his wife’s love and submission. 
  
According to the play, we notice that Kate is a free woman, neither speaking about the chains of marriage nor the punishment that Petruchio brings up to her. Her freedom comes from the linguistic feature; her emancipation becomes greater and greater through the language spoken by her, the tone which is used a symbol to her ironical performance. It brings to her husband’s admiration and love.

She dominated her husband using her language, her inner feelings showed through her speech and her words called Petruchio’s attention to her as a human being. It sounds to him as subordination, but it isn’t. Her speech shows authority and wisdom, qualities which are supposed to be masculine. It sounds as the changing of rebel to conformist, but it isn’t. 

The fantasy which is present in Petruchio’s mind blinds him to see what really is in Kates’s mind; he becomes from victorious tamer to a complacent master. Petruchio’s performance describes the presence of the feminine’s weakness’ myth: only the woman has the power to subordinate a man, by transforming him her tamer.

Uma Análise da Intertextualidade em José Lins do Rego nos Romances do “Ciclo da Cana-de-Açúcar” (Parte III)


3- Paralelismos entre os romances Usina (The Sugar Refinery) e Tess of the d’Ubervilles.

                
                 Ao contrário do primeiro romance de José Lins Menino de Engenho (1932), que deu início ao “Ciclo da Cana-de-Açúcar”, este último Usina (1936) encerra este momento da literatura nordestina, onde JUREMA (1980, p. 199)enfatiza de maneira simples, porém, com esmero na construção de sua definição de romance:

O romance nos mostra toda a força econômica da cana-de-açúcar. Ela, somente ela, é que faz aquele povo todo viver, pensar, se movimentar, acreditar em Deus, tornar-se fanático, rebelado, heróico, pacífico, humilde, bom, trapaceador, faminto. É o preço do açúcar dominando tudo. A gente vê que quanto mais se fortifica a economia rural dos canaviais mais o povo se aperta, mais a miséria entra, nas taperas, desalojando a gente da várzea e empurrando-as para as caatingas onde não pode plantar sua roça nem cavar cacimbas para matar a sede.

                De acordo com a definição de JUREMA, concluímos que com a chegada de industrialização tudo sofre mudanças e uma grande insegurança tomou conta dos moradores da casa-grande e da senzala em relação aos novos trabalhadores e também ao perigo que as máquinas representavam.

Que não queria metido na usina, que aquilo era um perigo. Ela sentia que era perigoso estarem os meninos metidos pela fábrica. Aquela maquinaria não tinha nada de mansidão dos bangüês. Juca estava com toda a razão. Então se alarmava com os filhos. E depois o povo era outro. Ninguém nem sabia donde viera aquela gente toda. Os filhos se podiam perder, ficando naquele convívio. Preocupava-se.  (p.76)

                Como ocorreu em outros romances já estudados em capítulos anteriores, José Lins fez uso nesse romance Usina (1936) de uma intertextualidade com relação ao escritor inglês Thomas Hardy (1840-1928) em seu romance Tess d’Ubervilles (1891), quando sua personagem-título do romance, Tess, é protagonista da vinda da industrialização rural, uma crítica negativa que HARDY fez à Revolução Industrial ocorrida na Inglaterra no final do século XVIII e início do século XIX. Tanto quanto HARDY, José Lins mostrou-se bastante consciente pelas mudanças causadas por esta Revolução Industrial. Então, José Lins sob influência de HARDY, utilizou em Usina (1936) muitos tipos humanos vinculados a este processo de industrialização a fim de  apresentar uma análise contrastiva de seus personagens e lugares. Será apresentada durante toda esta análise, a descrição de José Lins sobre a descrição de José Lins sobre a caracterização dos personagens, ambientes e lugares, de uma forma intertextual bastante precisa; de fato, José Lins mostrou em cada situação desse romance Usina (1936), visões irônicas de um desenvolvimento crescente de sua época. Ele retratou, com sabedoria, a transição de um trabalho manual para o industrial, a presença do maquinário e a influência dessa industrialização nas pessoas e em seus ambientes de trabalho.

CARLOS DE MELO

DR. JUCA
Maria Alice
Dona Dondon
Engenho Santa Rosa
Usina Bom Jesus
Sinal de Felicidade
Sinal de riqueza


Observamos, claramente, que o principal objetivo de José Lins é simbolizar a realidade pelo uso dos lugares, das pessoas e do maquinário para indicar a revolução que aconteceu em sua época, com a sua gente e na sua terra nordestina.

Análise contrastiva e intertextual dos personagens:


TESS d’UBERVILLES (1891)
USINA (1936)

Tess
Tio Juca
Representa a ruína do trabalho manual e agrícola
Ambicioso (p.61)
(Ambição desmedida)
Morte dos sonhos humanos
Idéia de montar a usina
Decadência da Família Tradicional
Dominador (usurpador e cheio de soberba (p.223)
Foi estuprada – tem um menino chamado Sorrow
Orgulhoso pelo poder da usina
Passiva - Submissiva
Decadência da Paz na Família
Seu caráter define, na verdade, uma verdadeira mulher vitoriana, se ela não tivesse quebrado as leis social e moral
Clarinda – Símbolo da prostituição do Dr. Juca (p.105)
HARDY mostra que Tess apresenta uma dupla personalidade, cheia de contradições e controvérsias como todos os vitorianos: aparentemente boa, essencialmente má
Perda do respeito pelo excesso de abusos (p.223)

Decadência moral e financeira (p.261), fracasso (p275) e doença (p.287)

Seu caráter dominador define um verdadeiro dono de usina, mas, a soberba e a indecência do seu comportamento traduzem a perda e a garantia de um futuro partilhado e compartilhado pelos seus

José Lins apresenta em Dr. Juca, como o poder material pode corromper a boa natureza do ser humano, transformando-o em um rei destronado, um ex-soberano da Bom Jesus (p.330)

                De acordo com a simbologia usada por Hardy, é fácil observar que Tess, como um personagem feminino, significa o que é velho, ultrapassado e sujeito a mudanças radicais. O que poderíamos chamar de velho e ultrapassado? BROWN (1975, p. 159) declara que “for Tess is not only the purê woman, the ballad heroine, the country girl: she is the agricultural community in its momento of ruin”. (Tess não é somente uma mulher pura, a canção da heroína, a garota do campo: ela é a comunidade agrícola no seu momento de decadência).[1]


ZONA RURAL
TESS
MÁQUINA DEBULHADORA


                ALVAREZ (1978, p. 13-14) menciona que:

In a way, the tragedy of Tess, ‘a pure woman’, is also the tragedy of the old, ‘pure’ Wessex from which she comes. Both are corrupted and betrayed by the modern world in its various aspects: Tess by Alec’s parvenu hunger and Angel’s narrow, icy enlightenment, the countryside and its customs by the relentless encroachment of the new society with its railways, its indifference, its new rich families taking over old names and building their hideous new mansions, its gradual industrialization of the old methods of agriculture, typefied by the demonic threshing machine on which Tess is tortured.
(De certa forma, a tragédia de Tess, ‘uma mulher pura’, é também a tragédia da velha ‘pura’ Wessex da qual ela veio. Ambas são corrompidas e traídas pelo mundo moderno em seus vários aspectos: Tess pela ânsia de Alec e pela reduzida e indiferente informação de Angel; o campo e seus costumes pela implacável invasão da nova sociedade com suas ferrovias, sua indiferença, as novas famílias ricas, sucedendo as velhas e construindo suas repugnantes novas mansões, sua gradual industrialização dos velhos métodos agrícolas, representado pela diabólica máquina debulhadora na qual Tess é atormentada).[2]


TESS
DR. JUCA
Mentiras de Alec
Posse do Engenho Santa Rosa
Abandono de Angel
Decadência do Sr. Carlos de Melo
Perda da Castidade
Domínio do Poder

WESSEX
USINA BOM JESUS
Estrada de Ferro
Estrada de Ferro
Máquina Debulhadora
Máquina Moedora da Cana-de-Açúcar
Mansões
Mudanças na Casa Grande
               

            Vários autores foram citados e, assim, tentamos definir a própria indignação de José Lins em relação ao futuro, o qual significou para ele a destruição da família, prevalecendo a negação dos valores humanos, da própria comunidade familiar símbolo de amor e união, e a consequente expansão do liberalismo, e, acima de tudo a riqueza das pessoas cuja religião passou a ser o ganho de dinheiro e a ascensão dentro da tradição social.
                José Lins a bons exemplos que mostram a sua ironia em relação à presença da industrialização, cujo ponto de partida é a covardia de Carlos de Melo que,

[...] deixou o Santa Rosa, fugindo dos pavores que o atormentavam, entregando o seu patrimônio aos parentes, o velho engenho se transformara de alto a baixo. A família queria uma usina, alcançar o progresso, igualar-se com outras, que haviam subido de condição com as turbinas à vácuo. (p. 61)

                Assim, aproveitando-se dessa fraqueza humana do Carlos de Melo, o Dr. Juca, ou melhor, o tio Juca, apropriou-se deste engenho do Santa Rosa, e assim, José Lins dando ênfase ao setor agrário descreve o porque de tanto interesse do tio Juca pelo engenho Santa Rosa:

A usina Bom Jesus nasceu dessa fraqueza, da luta entre a São Félix gananciosa e a família do velho José Paulino, querendo resistir à invasão que vinha de fora. O Dr. Juca sonhava com o poder, com o despotismo que esteira de usina impunha. E o Santa Rosa fora escolhido para sede da fábrica pelas suas condições naturais. Com a compra de mais outras propriedades a usina ficaria em situação privilegiada. Várzeas extensas e água com fartura era tudo para o destino que o Dr. Juca queria dar ao velho domínio do pai. E depois, a situação topográfica do engenho era ótima, sobretudo pela proximidade da estrada de ferro e a vizinhança de outros engenhos. Era bem o Santa Rosa o centro de zona capaz de fornecer cana para a grande fábrica. (p. 62)

                Com a chegada do progresso houve várias mudanças no tocante aos aspectos humano, ambiental e físico:

   A-  No aspecto humano, José Lins aponta as principais mudanças no convívio da casa-grande e na dos escravos:
A casa-grande da usina não podia continuar a ser uma casa-grande de engenho. O dr. Juca cuidara de dar-lhe  uma cara mais decente. Aquela banca do alpendre de pau bruto, aonde o velho José Paulino dava as suas audiências, fora substituída, desaparecera para um canto qualquer. Ali agora brilhava a palha branca de umas cadeiras de vime. E rua, a antiga senzala dos negros, não podia ficar bem defronte de uma residência de usineiro. Botaram abaixo. E as negras tiveram que procurar abrigo mais para longe. Avelina, Luíza, Generosa, Joana Gorda que fossem arranjar os seus teréns lá para o alto. (p. 63)

                Houve até discriminação entre os trabalhadores do eito com os da usina:

1- Operário vinha de fora, era gente de maior importância, a quem davam casa de telhas para morar e pagavam uma fortuna. Os trabalhadores nem podiam acreditar que um sujeito daquele ganhasse seis mil réis por dia. O pessoal, que morava ao redor da usina, vivia separado do resto, da grande escravatura lá de fora. Falavam mesmo, com desprezo, dos cabras da enxada. (p. 153)

2- Operário não recebia vale. Dinheiro para eles era mesmo dinheiro de verdade. Para o pessoal do eito era o vale que tinha valor. (p.154)

Mudanças também no comportamento do Dr. Juca:

1- E o marido não queria mais filho novo dentro de casa. Choro de menino só mesmo para quem não tinha o que fazer, dizia ele. Juca estava mudando. (p. 70)

2- O relacionamento do marido estava fazendo as meninas sofrerem. Por ela não se importava mais. Conformara-se. (p. 98)

3- O Dr. Juca queria o riacho para as suas máquinas. Gastaria uma fortuna com ele para em breve tê-lo na serventia, às suas ordens, como um prisioneiro submisso e útil. (p.91)

Observamos até que ponto a ambição de um ser humano pode causar danos, não somente ao seu semelhante, mas, também a todo um processo de crescimento cuja interação homem x meio-ambiente é de vital importância.
Dr. Juca, em Usina (1936) representa uma moenda que destrói o lado bom das coisas: o rio Paraíba, o cultivo das espécies agrícolas com exceção da cana-de-açúcar, quanto às pessoas ele destrói casas, desmoraliza o próprio trabalhador do eito, inferiorizando-o. José Lins  foi perfeito no uso de símbolos para com os seus personagens.
  

      B- Quanto ao aspecto ambiental, percebemos que até a natureza negava-se a produzir e refletia o seu sofrimento através do feio e sem fertilidade:

Ali no Santa rosa, ainda tentou fazer alguma coisa. Mas a vida era diferente. Procurava mesmo fazer um jardim. Plantar uns crótons pela porta da casa-grande. Só encontrara mesmo aquele pé de jasmim, que dava para o seu quarto. Só o jasmineiro resistira â desgraça que passa pelo Santa Rosa. (p.68)

                A natureza será vista com mudanças positivas de transformação no final do romance:

Um sol de junho caía pelas terras da Bom Jesus. As estacas da estrada com as trepadeiras. As cajazeiras, que com aquele inverno haviam crescido os seus galhos, cortados para que não dessem sombra aos partidos. Bandos de periquitos gritavam. Uma alegria imensa enchia a terra. (p. 330)

     C-   Outro ponto importante é a mudança no espaço físico, quando da comparação da usina com os banguês:

Que não queria meninos metidos na usina, que aquilo era um perigo. Ela sentia que era perigoso estarem os meninos metidos pela fábrica. Aquela maquinaria não tinha nada de mansidão dos bangüês. (p. 76)

                Tipos de mudanças no aspecto físico:    

                A usina, no seu crescimento, era símbolo de poluição e percebemos este desastre industrial nas descrições do autor José Lins:

1    -  Na água
A) A usina arrasara o Paraíba com a podridão de suas caldas. O povo cavava cacimba na beira do rio, furava até encontrar água salobra. E era assim que se defendia da sede, nos meses de seca. A água cortava sabão, mas sempre servia para se beber. A Bom Jesus agora despejava as suas imundices pelo leito do rio, sujando tudo, chamando urubu. E quanto mais a usina crescia, quanto mais que crescesse, teria imundice para despejar. (p. 189)

B) A usina despojara o Paraíba de suas bondades, mijando aquela calda fedorenta, justamente nos tempos da seca. Transformava aquele leite branco, enverdecido pelos juncos, pelas salsas, num rego, por onde corria um fio de lama. (p. 190)


2     -  No ar

A)  Da chaminé da usina subiam para o céu nuvens de fumaça. (p. 129)

B) Aquela chaminé arrogante dominava terras que trabalhavam para as entranhas de suas máquinas. (p. 165)

3     -  Na terra

A) Os filhos andavam pelas estradas, como vagabundos. Os bichinhos deixavam a caatinga estorricada e desciam para a beira do rio. O rio era uma podridão e, mesmo assim, nos poços grandes os moleques mergulhavam na água podre. (p.241)

Com o advento da industrialização, não só houve mudanças nas pessoas, em termos de conduta, de crescimento pessoal, como também fatores que trouxeram à tona desajustes de cunho psicológico por sua apatia em relação ao mundo à sua volta e SOBREIRA (Ibidem, p.14) o define:

[...] como uma expressão final desse declínio das pessoas e das coisas, a figura contraditória e vacilante de Carlos de Melo que se transforma pelas qualidades negativas, num dos personagens mais vivos e dramáticos da moderna literatura brasileira.

                Mas, se observarmos, José Lins cuida de, simbolicamente, nos mostrar o declínio não somente do que é passivo, inerte. Segundo SOBREIRA (Ibidem, p. 57-58):

O romance não cuida propriamente da decadência da usina Bom Jesus e, sim, do caso da família do Coronel José Paulino, retratado na história do Dr. Juca. A usina passará para outras mãos, poderá ter outro destino, poderá continuar comendo os engenhos e banguês, poderá continuar devorando os Ricardos, os Felipes, os Felicianos, as negras velhas, na engrenagem de sua maquinaria. Não há remédio é para o antigo usineiro, que o romancista viu, num alto, expulso da terra, vencido e humilhado como um trabalhador do eito, olhando o rio Paraíba:
Lá embaixo era um mar que crescia. Começara a chuviscar um pouco. E o carro subia mais para o alto, com destino à casa de Amâncio, que era o melhor da redondeza, o povo olhava feito besta para o carro com o Dr. Juca deitado. O usineiro gemia com as dores que não duravam a chegar. Maria Augusta passava as mãos pela sua cabeça quase toda branca.
Era quase de noite. O sol se ia sem nenhuma cinta vermelha no poente. Tudo cor de chumbo no céu. A noite chegava. Chovia. E. D. Dondon olhou lá para baixo. Tudo ia se escurecendo.
Só mesmo, de muito longe, a lanterna do monumento de Nossa Senhora da Conceição atravessava o rio e a chuva. Aí o Dr. Juca falou para a mulher, para a filha e as negras:
_ ‘Isso é o mesmo que pedir esmolas’.

Um exemplo da modernidade que ainda estava por vir.

                Esta seção parece ser a conclusão da anterior, porque o velho, o que é obsoleto está sempre sendo substituído por uma visão caracterizada pelo novo e pelo moderno, que, a princípio, ninguém conhece ou pretende aceitar ou usar. A modernidade significa mudança, o quebrar das correntes, e, de acordo com CUDDON (1979, p. 399), o modernismo:
Reveals a breaking away from established rules, traditions and conventions, fresh ways of looking at man’s position and function in the universe and many (in some cases remarkable) experiments in form and style.
(Revela uma quebra das regras estabelecidas, tradições e convenções, novas maneiras de olhar a posição  e a função do homem no universo e muitas (em alguns casos notáveis) tentativas na forma e no estilo).[3]

                José Lins tende a ser quase que experimental, quebrando as regras e modificando os métodos tradicionais de se contar estórias, ou auto estórias. Segundo PÓLVORA (1991, p. 314):

Em Usina encontram-se, porém, alguns dos grandes lances narrativos de José Lins do Rego, seus modismos de construção literária, que seu poder de reproduzir a oralidade, buscando efeitos literários sem perda da fluência que identificamos gostosamente nos autênticos contadores de estórias. E simplicidade do romance, sua estrutura desambiciosa são coisas enganadoras, são mágicas que José Lins do Rego praticava quase por intuição, como se fosse o herdeiro único de lembranças acumuladas e lhe bastasse abrir a boca, soltar a palavra.

                Uma maneira estrategicamente diferente de descrever lugares, pessoas e objetos. O autor estava consciente da importância de seus personagens e lugares. Daí, a união perfeita dos aspectos físico e ambiental com o aspecto humano que ele apresenta através dos fatos, eventos e desempenhos dos personagens.
                José Lins situa o homem na terra com todas as propostas de ascensão, e consequentemente decadência do patriarcalismo nordestino, representados pelas moendas do Engenho Santa Rosa e pelas máquinas industriais da Usina Bom Jesus; onde presenciamos as dádivas da natureza e a revolta da mesma quando poluída e relegada à cobiça do movimento latifundiário em vigência, que separou os vários tipos humanos, neutralizado a partilha e o compartilhamento dos próprios valores.

Conclusão:

                Este trabalho nos ofereceu a oportunidade de conhecer e comparar romances pertencentes ao “Ciclo da Cana-de-Açúcar” de José Lins do Rego. Não é uma análise comparativa de fácil entendimento, porque o assunto necessita de várias pesquisas em autores que escreveram ou escrevem sobre o Nordeste, sobre José Lins do Rego, que segundo CASTELLO (1966, p. 16-46):

É um homem profundamente identificado com sua terra, o seu povo, a sua região e por extensão o seu país e a humanidade.

                Esta afirmação nos inspirou a desenvolver este tema, que tanto quanto conhecemos a esse respeito, é de cunho totalmente original, ou seja, nunca foi antes apresentado em relação aos romances de José Lins do Rego, que com certeza alcançou sua objetividade. Não fazendo uso de terminologias difíceis e confusas que, muitas vezes, ofuscam o nosso entendimento.
                Em acréscimo, gostaríamos de chamar a atenção do leitor para a importância da intertextualidade como um meio simples e comum de estudar o antagonismo de vários romances que refletem diferentes tipos de experiência e época.
Esta pesquisa sobre a intertextualidade é uma tentativa de preparar a aplicação  deste estudo no ensino tanto quanto na compreensão literária de acordo com o nível dos alunos. Não é uma tarefa fácil, mas chama a nossa atenção para o problema do relacionamento entre literatura e linguística. Uma completa a outra. A intertextualidade nos permite comparar os conceitos e as explicações de estudiosos nos seus campos de pesquisas. Eles são muito subjetivos. Na literatura, os autores apresentam a intertextualidade de uma forma mais detalhada e prática. As diferenças peculiares entre os teóricos e os autores, nos dizem o quanto contemporâneo é o uso do termo.  A pesquisa está baseada nas teorias linguísticas do Prof. Affonso Romano de SANT’ANNA que é bastante didático na aplicação do termo intertextualidade. Para ele o conhecimento deve ser gradual, mas constante.
                José Lins do Rego apresenta a liberdade necessária para revelar as verdadeiras emoções e desempenho dos seus personagens. Ele faz críticas e demonstra a sua ironia quanto ao orgulho, à ambição, à repressão. Intertextualizando HARDY, LAWRENCE E TWAIN, José Lins apresenta de um lado a sua rebelião a favor do idealismo revolucionário e do outro, um mundo cheio de medo com sua crueldade moral e a sua injustiça social.
                Tomando os romances de HARDY, LAWRENCE e TWAIN como base, José Lins apresenta um estudo documental de abusos sociais e complexidades pessoais, e é também uma percepção lírica dos valores humanos sobre o que ele entende de ser um mundo paradoxo no qual HARDY, LAWRENCE e TWAIN viveram.
                Como uma conclusão geral, nós acrescentamos que uma pesquisa recente sobre o uso da intertextualidade mostrou-nos que a intertextualidade é um elemento importante no estudo de qualquer trabalho literário ou linguístico e que os professores têm um papel relevante neste campo.

                       INTERTEXTUALIDADE

PROFESSORES
ALUNOS
- Aperfeiçoamento
- Habilidade
- Currículo eficiente
- Iniciativa
- Conhecimento prévio
- Boa orientação
- Motivação


                Finalmente, esperamos que esta pesquisa sirva como um roteiro para professores e alunos em cursos de língua/literatura portuguesa e língua/literatura inglesa, a fim de que o papel desempenhado pela intertextualidade possa ser bem mais apreciado.
                A intertextualidade significa uma nova descoberta, um mundo de contradições, mas também de pontos de vista semelhantes. Toda investigação deve trazer-nos momentos de iluminação perceptiva positiva.

Referências Bibliográficas:

ALVAREZ, A. Introduction to Tess of the d'Ubervilles. In: HARDY, Thomas. Tess of the d'Ubervilles. Hardmonsworth, Middlesex, England: Penguin Books, 1978.   553p.
BROWN, Douglas. A novel of character and environment. In: R. P. Drapper Ed. Thomas Hardy: the tragic novels. London: Macmillan, 1975.  375p.
CASTELLO, José Aderaldo. Memória e regionalismo. In: Menino de Engenho. Rio de Janeiro: José Olympio, 1966.
CUDDON, J. A. A dictionary of literary terms. Hardmondsworth, Middlesex, England: Penguin Books, 1979.   761p.
HARDY, Thomas. Tess of the d'Ubervilles. Hardmonsworth, Middlesex, England: Penguin Books, 1978.   553p.
JUREMA, Aderbal. O romancista da cana-de-açúcar. In: MARTINS, Eduardo. José Lins do Rego - O homem e a obra. João Pessoa^: A União Cia Editora, 1980.   425p.
PÓLVORA, Hélio. Permanência de Usina: In: COUTINHO, Eduardo F. et alii. José Lins do Rego. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.   474p. 
REGO, José Lins do. Usina. 4ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956.   338p.
SANT'ANNA, Affonso Romano de. Paródia, Paráfrase & Cia. 3ed. São Paulo: Ática, 1988.  96p.



[1] A tradução que figura entre parênteses é da responsabilidade da autora da pesquisa.
[2] A tradução que figura entre parênteses é da responsabilidade da autora da pesquisa.
[3] A tradução que figura entre parênteses é da responsabilidade da autora da pesquisa.

domingo, 20 de novembro de 2011

Uma Análise da Intertextualidade em José Lins do Rego nos Romances do “Ciclo da Cana-de-Açúcar” (Parte II)

Profª. Drª. Bárbara de Fátima.


2- Paralelismos entre os romances Moleque Ricardo (Black Boy Richard) e As Aventuras de Huckleberry Finn (The Adventures of Huckleberry Finn).

                O personagem-título do romance de José Lins, o moleque Ricardo representa ao longo da estória a união do trágico na dualidade campo x cidade. Mais uma vez o meio ambiente, a natureza entra freqüentemente em cena a fim de descrever os acontecimentos sociais e políticos da cidade grande e os problemas enfrentados na zona rural com os seus moradores do engenho Santa Rosa, a influência do meio-ambiente nestes personagens e a comparação que de maneira psicológica afeta o moleque Ricardo quando ele está no Recife.

                É GAMA e MELO (1991, p.279) quem o define como:

Ricardo, amolecido pelo barro patriarcal do Santa Rosa, afundada a infância no massapê gordo daqueles engenhos, vem florescer no Recife.

                E o romance de cunho político o Moleque Ricardo (1935) não poderia ficar à margem de toda a natureza apresentada pelo autor José Lins. É um estudo dos vários tipos de influências nas coisas e nas pessoas introduzidas no texto através das comparações em relação:

         a) Ao meio ambiente:

1-      As tardes, Ricardo ficava sentado debaixo das mangueiras do quintal quase sempre a esta hora as cigarras cantavam na rua do Arame. (p. 87)
2-      O barulho que os ventos faziam nas árvores chegava até o quarto de Ricardo. Uns galhos do cajueiro davam para um lado da venda. De noite, ali com Francisco, o moleque bem que se banhava do Santa Rosa, dos arvoredos de lá. A lua banhava tudo de branco como nas cajazeiras da estrada. (p. 129-30)
3-      Quando chegaram no poste da estrada, o sol descia com toda a sua pompa de cores sobre o mangue cheio. Maré plena. Havia ouro na água serena, um ouro dos raios de sol, brilhando para a vista. (p. 200)
4-      Só no mangue se podia ver a luz do sol se pondo. Um ventinho frio balançava as folhas dos coqueiros. (p. 223)
5-      A lua vagava pelo céu da rua do cisco bem de longe do fedor do curtume, espelhando-se no mangue silencioso. Ali não cantavam sapos como nas lagoas do Santa Rosa, a água era imunda e serena. (p. 247)

           b) Às pessoas:

1-  Só as caras é que eram tristes. Ricardo no meio deles lembrou-se  dos trabalhadores na volta do eito. Os de lá vinham com mais lama no corpo, com a barriga mais oca. (p. 80)
2-     No entanto o patrão o tratava bem, sem gritos, sem aborrecimentos. Também não dava por onde. Vira com os outros aos berros. Os homens da padaria, até o patrício viviam com o patrão pelas goelas.  Ninguém levasse pão para casa que ele visse. Chamava de ladrão a todo o mundo. Não era o “ladrão” da boca do velho Zé Paulino. Era um ladrão que feria os outros com vontade de ofender. Seu Alexandre, porém, gostava de Ricardo. (p. 100)
3-    Cordeiro não lhe respeitava a fama de rico, de herdeiro de latifúndios. Metia o pau nas fendas, nos senhores de engenho, na miséria dos trabalhadores, sem que Carlos de Melo se importasse. (p.132)
4-    O entusiasmo agitava as ruas. O leão do norte rugia por toda a parte, o doutor Pestana discursava para despertar consciência. (p.163)

c-) Aos lugares:

1-      De madrugada, quando saiu para o trabalho, ainda pensava naquelas coisas. O Santa Rosa moendo por conta dos trabalhadores. Qual nada aquilo só em sonho. Os cabras do eito teriam lá essa sorte? Ali mandaria para sempre o grito do velho. (p. 139)
2-      De um estábulo de perto ouvia-se o falatório de gente tirando leite. Tiniam os chocalhos. O moleque se lembrou das manhãs do engenho. Do curral cheio de gado, da lama até nas canelas e dos potes de leite, teve até saudades de lá. (p.168)

          d-) À política:

1-      O operariado de lá continuava agitado. O Doutor Pestana se aliava com os políticos contra o Governo Federal. Os jornais guardavam pela autonomia do Estado, contra os interesses do Presidente da República em mandar em Pernambuco, e por isso a cidade andava em pé de guerra. Cangaceiros chegavam do interior. Dizia-se por toda a parte que o operariado ao lado do Borba. Via-se o chefe Pestana de automóvel como senador. (p.145)

          e-) Aos sentimentos:

1-      O moleque Ricardo andava amando outra vez. O amor de Guiomar rebentara, agora mais sujo, mais violento. O amor dele era mesmo da terra, vivo, de carne, amor melado de luxúria. (p.163) 

         f-) Às crenças:

1-      Seu Lucas oficiava num culto. Era sacerdote de Xangô, pai de terreiro. O que ele ganhava nas flores gastava com o Deus dele, com os negros que lhe tomavam a benção, com as negrinhas que dançavam na sua igreja. Estivera preso como catimbozeiro, como negro malfeitor. Mas seu Lucas passava por tudo isso sem mágoa. (p.117)

        g-) À profissão:

1-    Agora Ricardo trabalha para um portuga numa padaria. Deixara a casa de dona Margarida a chamada de um vendedor de pão. Colocou-se como carregador de balaio, com noventa mil réis por mês, e lugar para dormir. (p. 89-90)
2-    O próprio Dr. Pestana não passava de um capanga titulado, um instrumento de política burguesa. (p. 184)

       h-) Às festas populares:

1-      Era aquele o primeiro carnaval em que Ricardo se metia. Passara os outros ali em Recife, de fora, fora de tudo, do povo, da música. No engenho se falava das mascaradas, mas ninguém deixava a enxada nos três dias. Eram dias como os outros. Pela estrada apareciam mascaradas que todo mundo sabia que eram. Vestiam-se de negra e estalavam os chicotes, procurando pegar os moleques, que corriam se mijando de medo para as saias das mães. Na casa-grande, às vezes, quando havia gente de fora, sacudia a água uns nos outros. E o coronel na calçada rindo-se das raivas e dos sustos que faziam as negras com as bacias d’água sacudidas com força. O carnaval ali era só aquilo.  (p. 219-20)

Como podemos observar Moleque Ricardo (1935) é um romance onde o autor José Lins mescla a estagnação ou estática do engenho Santa Rosa (zona rural) com a movimentação ou dinâmica da cidade do Recife (zona urbana). É um romance de cunho político-social, é também rico em detalhes e com diversificação em seus tipos humanos. Na política, temos “a figura do Dr. Pestana, o político, o amigo dos operários, com um olho na Câmara Federal, é um grande achado”.  (SOBREIRA, ibidem, p. 48)

Em se tratando de história e política, o historiador José Octávio (1974, p. 47) relata com grande ênfase os mitos políticos de uma época, as quais influenciaram as idéias de José Lins:

É nesse particular, que reponta a marcante contribuição dos trabalhistas, quase todos jornalistas-políticos-escritores: Joaquim Pimenta, Agamenon Magalhães, Agripino Nazareth, Lindolfo Collor. A partir daí, o debate sobre o problema social brasileiro adquirirá um cunho visivelmente mais realista. [...] restava agora solver o outro problema: a redistribuição da riqueza nacional.

                Ao fugir do engenho Santa Rosa, Ricardo procurou fugir da pobreza, porque lá os homens não conheciam a greve, nem os movimentos que procuravam lutar em prol dos trabalhadores como havia no Recife.

Uma consciência de classe, ainda indistinta ainda possível de exploração como acontece na luta política que envolve o Recife da época. Com o Dr. Pestana, com um socialismo para uso externo, arrebatando as massas e dizendo-se líder do proletariado, quando deles quer apenas o apoio, um apoio que lhe possibilite conquistar uma deputação federal. (MELLO, ibidem, p. 281)

                Quanto ao estudo do aspecto social, o autor José Lins foi um,

[...] romancista, autêntico, sincero, de olhos abertos à realidade, sentiu o drama da miséria dos mocambeiros, a miséria de Florêncio, morrendo no mangue, enquanto o patrão pagava automóvel para a mulata se pavonear no carnaval. Viu o drama humano e retratou-o, como tinha retratado o dos párias do engenho. (MELLO, ibidem, p. 304)

                De acordo com a opinião de GAMA e MELO (ibidem, p. 304), José Lins:

Sem saber, estava oferecendo um documento de grande importância para a estruturação do pensamento político das novas gerações nordestinas.

                Não poderíamos deixar de focalizar no estudo desse romance toda a força de José Lins que provém do seu interior e transborda da intertextualidade que ele apresenta ao retratar o moleque Ricardo, que foi anteriormente vivenciado pelo negro Jim em The Adventures of Huckleberry Finn (1883), um romance de Mark Twain (Samuel Langhorne Clemens) (1835-1910), onde o negro Jim escapa da escravidão com o amigo Huck Finn em uma balsa e, longe da civilização, eles tentam superar as dificuldades, passando a cultuar o advento de outros valores distorcidos pela distinção de classes inferior e superior, pelo racismo, pelo preço a ser pago pela sua liberdade, etc.


MOLEQUE RICARDO


NEGRO JIM
SANTA ROSA
(liberdade)
Miss WATSON’S SLAVE
(injustiça social)
RECIFE
(crescimento pessoal)
RAFT
(fortalecimento da amizade)
FERNANDO DE NORONHA
Prisão
(injustiça política)
LIBERTY
(adoção por Tia SALLY)

                 
             A figura central da estória é Huck Finn: a estória é contada sob o seu ponto de vista, na primeira pessoa. Huck vê e relata: algumas vezes ele entende o que ele vê, e então ele a interpreta. Algumas vezes ele não entende, e isto é também significante. O tema central da estória é observado no primeiro e no último capítulo: a luta de Huck contra a sua não vontade em tornar-se civilizado. Ele está sempre envolvido em aventuras reais e é constantemente advertido por sua consciência. Durante toda a viagem pelo rio, ele tenta responder a pergunta se está certo o que a irmã da viúva está fazendo ou se é Jim. A sua preocupação com a justiça, o está colocando no centro de um dilema. Qualquer que seja a escolha que ele faça, ele está errado. Ele está errando se Jim voltar com ele para escravidão; ele está errando com Miss Watson se ele ajudar Jim a fugir. Huck não tem jeito de saber se ele está certo. Ele deve seguir os mandos de seus sentimentos todo o tempo. A única coisa que ele pode fazer é aprender através da experiência. E ele faz. (BUTRYM, 1977, p. 7)

                A aventura no Rio Mississipi, uma das mais fascinantes viagens, começa no capítulo XII.  Este capítulo está repleto de referências à vida idílica que Huck e Jim estão vivendo. O principal item desta vida é a balsa. É nesta balsa, uma oferta do rio, na qual os dois farão  as suas jornadas (TWAIN, 1961, p. 23):

Daytimes we paddled all over the island in the canoe. It was mighty cool and shady in the deep Woods, even if the sun was blazing outside. We went in and out amongst the trees, and sometimes the vines hung so thick we had to back away and go some other way.
(Durante o dia nós remamos através da ilha na canoa. Era bastante frio e ensombrado na floresta adentro, até se o sol estivesse queimando do lado de fora. Entrávamos e saíamos entre as árvores, e algumas vezes as trepadeiras eram tão espessas que nós tínhamos de voltar e prosseguir por outro caminho).[1]

                Eles flutuavam pelo rio, parando aqui e acolá para comprar alguns suprimentos ou “pedir emprestado” uma galinha, um melão ou uma abóbora. Quando ele encontravam aventura, Jim diz a Huck:  “Better let blame’ well alone”. (TWAIN, ibidem, p. 32) (Melhor sermos censurados do que deixarmos de fazer).

                O principal objetivo da fuga de Huck em balsa está ligado ao tema da desumanidade do homem para o homem. Nós observamos este fato claramente no capítulo XVIII, onde o orgulho da luta feroz entre os Grangerfords e os Shephersons com os incidentes que ninguém pode agora relembrar. Eles se respeitam, mas também se destroem. Um bom exemplo disso é o caso de amor entre Sophia e Harney, o qual lembra-nos do amor em Romeo e Julieta de William Shakespeare. É importante observar, como Huck só é feliz quando ele volta ao rio, à balsa e à Jim novamente. Ele está profundamente impressionado pela sordidez, pela sede de sangue e a crueldade e estupidez dessas famílias altamente respeitáveis. Este fato o faz sentir-se doente interiormente.

                Toda esta jornada descreve principalmente o crescimento de Huck e Jim e o conseqüente amadurecimento em relação às emoções vividas. No capítulo XIX, a jornada idílica de ambos usando o rio e apreciando a beleza e bondade da Natureza, maculada somente onde fora tocada pela mão do homem. A calma, a tranquilidade e o sossego do rio são desfrutados por Huck.

                O termo fuga, aqui mostra o contato real de Huck com a civilização, como aconteceu com o moleque Ricardo. Sua verdadeira jornada balança entre dois mundos: o contraste entre o rio e a civilização que é o objetivo do romance. Muitos críticos enfatizam a importância da diferença entre esses dois mundos, e eles questionam como Huck, um garoto branco, está sendo colocado entre velhas lealdades e as regras da civilização e sua própria escravidão, de um lado, e a fascinação de um rio, um novo mundo com valores diferentes e sua própria liberdade, do outro lado, como por exemplo, quando no capítulo XXIV, Huck é tido como rebelde por estar contra a conduta cruel do King e do Duke. O desgosto de Huck é também um reflexo da atitude de TWAIN em relação à falsidade e à desumanidade. Huck diz: “It was enough to make a body ashamed of the human race”. (TWAIN, ibidem, p. 83) (É o bastante para fazer um corpo envergonhar-se da raça humana).  

                Os momentos de crise de Huck aparecem quando ele finalmente resolve seguir seu coração em vez de sua mente; isso ocorre no capítulo XXXXI. Ele sabe que para salvar Jim da escravidão significa fazer a coisa errada, mas ele é um Abolicionista, ou pior, mas ele não é um hipócrita. Ele está certo que vai fazer a coisa errada pela razão certa. Ele decide, e aceita as conseqüências de sua decisão: “All right, then, I’ll go to hell; and tore it up. It was awful thoughts and awful words, but they was said”. (TWAIN, ibidem, p. 106) (Está certo, então, eu irei para o inferno; e o rasgou. Foram pensamentos e palavras terríveis, mas foram ditas). Este é um tipo de ecravidão moral e essa decião de Huck, de acordo com TRILLING (1961, p. 195) significa:

[...] the beginning of the moral testing and development which a character so morally sensitive as Huck’s must inevitably undergo. And it becomes na heroic character when, on the urging of affection, Huck discards the moral code he has always taken for granted and resolves to help Jim in his escape from slavery.
([...] o começo do teste moral e do desenvolvimento o qual um personagem tão sensível como Huck deve inevitavelmente tolerar. E torna-se um personagem heróico quando, no vigor da afeição, Huck rejeita o código moral que ele sempre levou em conta e resolve ajudar Jim em sua fuga da escravidão).

                HANSEN (1963, p. 45-66) afirma que o personagem de Jim é a chave para a compreensão do final do romance.  Comparando Jim com o nível da água do rio, ele afirma que “Jim is raised from the lowest level of comic stage Negro to the highest level of character, the Natural man”. ("Jim é promovido de um baixo nível de estágio cômico de Negro a um alto nível de personagem, o homem comum").

                Percebemos que no final, quando Huck e Jim decidem deixar Arkansas, do mesmo modo, que os níveis do rio, eles estão fugindo dos baixos níveis da cultura Americana para o último nível do refúgio do comum, que é o Território Indígena. Em tais termos, HANSEN vê na fuga de Jim através das águas do rio como um ato místico.

                Se considerarmos o romance sob o aspecto social, é necessário levar em conta o contraste relevante entre o rio e a margem. Esta oposição abrange uma grande parte do romance e mantêm-se em paralelo com a dualidade do bom natural (rio) e do mal social (margem). Além disso, a relevância de tais temas está diretamente ligada com o aspecto da derrota desenvolvida, como o próprio romance nos mostra, no final, esses dois mundos estão socialmente em oposição, como uma conseqüência das relações entre homens brancos e negros no Sul durante a década de 1830. Agindo como um Abolicionista, Huck torna-se o herói da ficção de Mark TWAIN.

                Durante o curso do romance, Huck torna-se um garoto experiente, mais maduro, mais humano como um resultado de sua experiência com Jim no rio e na margem. Huck aprende o valor real da amizade. Ele chora quando Jim é vendido, no final do romance, por dois charlatões (King e Duke) por quarenta dólares para a família Phelps.

                O romance não expressa só a rebelião, mas a grande mudança de caráter e conduz este crescimento para o coração do garoto. Sem dúvida nenhuma, Huck é esse garoto, e de acordo com Leo MARX (1961, p. 207):

After Huck’s escape from his “pap”, the drift of the action, like that of the Mississipi’s current, is away from St. Petersburg. Huck leaves Tom and the A-rabs behind, along with the Widow, Miss Watson, and all the pseudo-religious ritual in which Nice boys must partake. The return, in the end, to the mood of the beginning therefore means defeat – Huck’s defeat; to return to that mood joyously is to potray defeat in the guise of victory.
(Depois da fuga de Huck de seu ”pai”, a tendência da ação, igual à correnteza do Mississipi, é fugir de St. Peterburg. Huck deixa para trás Tom e os A-rabs, mais adiante a Viúva, Miss Watson, e todos os rituais pseudo-religiosos dos quais os bons garotos devem participar. A volta, no final, ao modo do início, entretanto, significa a derrota de Huck; voltar a esse modo alegremente é retratar a derrota sob a forma de vitória).

                Agora vem a pergunta inevitável: Quem realmente foi derrotado em The Adventures of Hucleberry Finn? Tanto quanto a derrota moral é concebida, é inegavelmente verdade que Huck é golpeado pelas regras da sociedade. Mas, as mortes de Miss Watson e Pap trazem a liberdade real para ele e Jim: Jim é livre das correntes da escravidão de acordo com o testamento de Miss Watson e Jim diz a Huck que Pap era o homem morto que eles viram na balsa. Então o que parecia ser uma derrota aparente tornou-se um triunfo final, de acordo com os princípios da lei e fazendo uso da razão.
                Esse triunfo final de Huck Finn, não é o mesmo dedicado ao moleque Ricardo. O governo desejoso de acabar com a anarquia operária, mandou manter os líderes na prisão:

O Dr. Pestana, metido em prisão por umas horas, teve a mulher para gritar por ele, habeas-corpus que o livrasse dos constrangimentos. Os chefes operários iriam para Fernando. Lá estavam os ladrões e criminosos curtindo penas. Para lá iriam os operários Sebastião e o povo da padaria de Seu Alexandre estava na lista para seguirem. Diziam os jornais que Sebastião era um perigoso agitador e a padaria onde ele trabalhava um foco terrível. Fernando de Noronha com eles. (p . 189)

                E Ricardo? Fugiu do engenho Santa Rosa, sonhando com uma nova oportunidade para si. Em tão pouco tempo ele metera-se nas mais severas encrencas e com pessoas erradas:

Os negros iriam para Fernando. Jesuíno e Ricardo na ilha com ladrões e criminosos. O jardineiro olhava o chão pensando nos homens. O que tinham feito ele demais? Jesuíno e Ricardo não mataram ninguém, não tiraram o alheio. [...] Que fizeram os negros? Que fizeram Ricardo e Jesuíno? Mataram? Roubaram? O governo mandava os infelizes pra Fernando. (p. 190-192)

                José Lins, na sua época, tentou através desse romance Moleque Ricardo (1935), conscientizar toda a sua geração que passiva ou ativamente lutava por melhorar as condições  de vida e a retratação desses acontecimentos transpostos para a ficção superaram as expectativas no tocante ao desempenho de seus personagens. São apontadas pelo autor as mais variadas experiências humanas dentro de um universo literário completo e definido.

Referências Bibliográficas:

BUTRYM, Alexander J. Mark Twain's The Adventures of Huckleberry Finn and related works. New York: Monarch Press, 1977.   122p.
GAMA e MELO, Virginius da. O romance político do Recife. In: COUTINHO, Eduardo F. et alii. José Lins do Rego. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.  474p.
HANSEN, Chadwick. The character of Jim and the ending of Huckleberry Finn. Massachusetts Review, 1963.  p.45-66.
MELO, José Octávio de Arruda. De 1930 aos nossos dias. In: Independência - tempo histórico e nacionalidade. Recife: Indústria Gráfica do Recife Ltda., 1974.  114p.
REGO, José Lins do. Moleque Ricardo. 17ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.  356p. 
TWAIN, Mark. The Adventures of Huckleberry Finn. In: Sculley Bradley Ed. The American Tradition in Literature. New York: W. W. Norton & Company Inc., 1962.  1576p.


[1] A tradução da pesquisa que figura entre parênteses é da responsabilidade da autora,  pertencente à ABRATES - Associação Brasileira de Tradutores, com Carteira Efetiva - Matrícula Nº 655.