Revista do NEFILLI

Núcleo de Estudos Filológicos, Lingüísticos e Literários – NEFILLI

O NEFILLI se propõe a ser um espaço virtual de articulação
e de produção do conhecimento sobre a linguagem
e as áreas de lingüística, literatura, filologia,
crítica textual e genética textual.

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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

RESUMO: A filologia dos textos modernos



Profª. Drª. Bárbara de Fátima.

SPAGGIARI, Bárbara; PERUGI, Mauricio. A filologia dos textos modernos. In: Fundamentos da Crítica Textual. Rio de Janeiro: Editora Lucerna, 2004. p. 173-229.

           
            Segundo a autora Bárbara Spaggiari, o primeiro dever do crítico textual é guardar a integridade (purity) dos documentos mais importantes da nossa literatura e da nossa cultura. Observa-se que nas literaturas anglo-saxônicas este ofício era um verdadeiro imperativo moral para o restabelecimento dos manuscritos literários e históricos nacionais na sua originalidade, bem como de preservá-los isentos das corrupções neles eventualmente introduzidas na sucessão dos processos de transmissão editorial.
            Entre os filólogos brasileiros há a tendência de misturar lições de textos diversos sem considerar a sua genealogia, o stemma, indispensável para fixar-lhes o arquétipo, ou introduzem alterações não justificadas por nenhum manuscrito, levados por certos preconceitos, hauridos em princípios doutrinários duvidosos ou numa análise distorcida dos fatos lingüísticos-literários do tempo.
            Numa época não muito remota, a autora apresenta que o filólogo e lingüista ainda não tinham clara consci~encia do processo de descaracterização dos textos em suas reedições, e por isso confiaram em muitas que mais tarde verificariam trazerem formas e construções modificadas pela indébita interferência de editores ou revisores que se achavam no direito de “atualizar” ou “corrigir” o que apenas deviam reproduzir com fidelidade.
            Como função primordial do filólogo, Spaggiari afirma que se o filólogo tem a obrigação profissional de emendar as modificações introduzidas ao longo da transmissão, tem igualmente que reconhecer e respeitar a vontade do autor, mesmo nas suas irregularidades, contanto que sejam cada vez mais devidamente racionalizadas.
            No Brasil, a crítica textual é comumente percebida, hoje em dia, como um dos instrumentos mais eficazes com vista a “participar do amplo e inadiável trabalho de defesa e valorização do patrimônio literário”. Mas, em muitos casos, os editores modificam indevidamente o texto original: 1- colocando os vocábulos no mesmo nível – pluralizando todos eles e 2- para aperfeiçoar, o editor banaliza o texto.
            A vulgata apresenta-se superior à de qualquer texto original, pois dá a oportunidade de, no aparato, reservar uma seção apósita a todas as variantes substantivas que, mesmo erratas, aparecem nas edições modernas que foram analisadas. A escolha do texto de base será aquele que melhor refletir a intenção final expressa pelo autor. Se o editor estiver de posse do manuscrito final e da primeira edição, então a escolha deverá recair no manuscrito como texto de base por dois motivos: 1- o manuscrito estará isento de qualquer erro de tipografia e 2- o manuscrito conservará as variantes de forma. Ao contrário Philip Gaskell apresenta que a escrita do manuscrito final é apenas uma fase no processo de redação. Sendo a revisão das provas tipográficas uma fase mais adiantada desse processo, segue-se que o texto impresso reflete com maior fidelidade as intenções finais do autor.
            A crítica lachmanniana está baseada numa concepção romântica das relações que existem entre o autor, suas obras, o público e as instituições culturais e sociais. O crítico textual deve ter em conta não apenas o fator da intenção autoral até porque o texto ideal não existe na realidade, nem  o autor autônomo. Alguns autores pertimtem participações alheias na responsabilidade pelo aspecto final do livro. Vários problemas surgem: acréscimo marginal do autor colocado num lugar errado, o copista está sempre sujeito à distração e ao erro.
            A função mais difícil da filologia moderna é a identificação das correções autorais, a eliminação das variantes de transmissão (inovações tipográficas). Já no campo das variantes substantivas, as intervenções mais pesadas nos textos de autores modernos dependem, com certeza, das práticas de (auto)censura. Há também o tabu temático, originados por um processo eufemístico de censura: amor homossexual, tentações carnais, etc.
            Os erros autorais não são apenas observados nos autores medievais ou quinhentistas. São erros de fato ou erros lingüísticos: erros históricos, geográficos, nomes, datas, isto significando falha na pesquisa do autor. Assim, o editor pode e deve corrigir os erros do autor;mas não pode e não deve inserir nenhuma informação falsa ou que não corresponda à verdade do universo do autor.Temos, assim, a distinção entre variantes formais e substantivas: erros substantivos (lacunas voluntárias) e erros acidentais (correção evidente). As emendas visam a trocar por uma construção mais polida um coloquialismo do autor, revelando assim uma atitude lingüisticamente preconceituosa.
            Na atualidade, tornou-se difícil o intuito de recuperar as características formais do original perdido. A uniformidade do estilo da composição, a rígida correção do editor sobrepõe-se aos traços do autor em relação à sintaxe, à pontuação e até à estrutura da fase do original. A roupagem nova não é favorável para autores antigos, sob pena de o editor dar origem a uma forma escrita, e muitas vezes até fonética, que nunca teria existido, criando um produto artificial visando o leitor moderno.
            Tradicionalmente, o estudo das variantes é diacrônico e obedece a um propósito normativo, pedagógico. A influência da crítica das variantes conseguiu, por vezes, até modificar a atitude dos próprios autores. No Brasil, a crítica das variantes cumpre com duas exigências primordiais: 1- reação à rigidez da sintaxe normativa; 2- a consciência da degradação editorial vigente (impossibilidade de o leitor e o crítico aproveitar os clássicos em edições fiáveis, isto é, filologicamente corretas).
            A teoria da crítica das variantes após vários anos, sob a luz da cultura francesa descobriu, a crítica genética. Esta nova abordagem versa sobre segredos que o texto impresso não permite conhecer e pretende fazer com o estudioso assista ao ato primeiro da criação acabada, desde a idéia até a sua realização final. O objeto da crítica genética são os manuscritos de trabalhos dos escritores. Enquanto crítica esta edição procura fixar um texto mais autorizado, isto é, mais próximo da vontade do autor; enquanto genética procura documentar o percurso seguido pelo autor na construção de cada texto.
            Hoje em dia, a investigação de arquivos e dos espólios autorais pelo pesquisador ocorre em várias etapas: 1- recuperar à pureza e integridade originária textos descaracterizados por práticas editoriais nada fiáveis, e, de qualquer maneira, deformados pelas inovações que se introduziram na vulgata; 2- reunir e publicar o conjunto de documentos aptos a aprofundar, de forma exaustiva, quer a pré-história genética de uma obra, quer a eventual sucessão de edições autorizadas; 3- publicar obras póstumas, procurando reconstruir da forma mais possível exata a vontade do autor; 4- enfim, trazer a lume os inéditos, quer estejam, quer não, em relação com as obras publicadas.
            A edição fac-similada é um instrumento técnico moderno que o filólogo utiliza para julgar uma edição crítica, quer de um manuscrito, quer de um impresso. O editor poderá estabelecer uma edição diplomática que vem ao lado do fac-símile. No laboratório do autor, o editor presencia a primeira fase, na prática, três etapas: 1- do cenário para o esboço; 2- do esboço para o rascunho; 3- e assim para a narração (elementos quer fantásticos, quer intertextuais). Temos o auge do processo de criação. Na segunda fase, temos as revisões, o autor lança-se à procura da palavra exata e da sua colocação no contexto. Na terceira fase, o autor vai limando as frases, conferindo através da lapidação cor, relevo, harmonia.
            Em seguida, temos o aparato crítico que é um sistema de notação destinado a registrar mediante símbolos especiais, usados na transcrição, a sucessão temporal das emendas (siglas curtas e evidentes).
            Na análise diacrônica das variantes percebemos que as variantes são susceptíveis de ser agrupadas conforme as relações que entretêm uma com respeito a outra, num quadro taxionômico e fenomenológico capaz de mostrar as constantes da produção autoral.
             Nas redações autorais temos dois fatos que a categoria de intenção ao autor se torna insatisfatória: 1- quando o editor tem de confrontar-se com um número considerável de variantes alternativas não resolvidas no manuscrito, dando-se também o caso de o autor hesitar entre uma e outra ao longo de sucessivas edições; 2- quando a natureza e a extensão do processo de revisão faz com que o resultado final pareça mais uma nova obra, do que uma versão definitiva da obra precedente.
            Na crítica textual aplicada aos autores modernos, um dos problemas mais árduos diz respeito à possibilidade de distinguir, em relação ao conceito de obra acabada (seja, ou não edita), entre texto inacabado e versão independente. Dificuldades análogas de arrumação apresentam-se na passagem do microtexto, isto é, da peça individual, seja ou não acabada, para o macrotexto, isto é, a recolha da qual é parte, e que pode ser mais ou menos vasta, mais ou menos provisória, e sobretudo, quer organizada, quer não, pelo autor.

RESENHA CRÍTICA: A Filologia e seu objeto – diferentes perspectivas de estudo



Profª. Drª. Bárbara de Fátima.


CARVALHO, Rosa Borges Santos. A Filologia e seu objeto – diferentes perspectivas de estudo. In: Revista Philologus, Ano 9, Nº. Rio de Janeiro: CiFEFiL, maio/ago. 2003.            p. 44-50.

            É muito gratificante para os estudiosos de textos escritos a maneira simples, objetiva  e bastante didática pela qual a autora expõe a Filologia em seus diferentes campos de atuação.: a Lingüística, os Estudos Literários e o Comentário ou Explicação de Textos. Mas, segundo ela, dentre o conjunto de atividades pertinentes à Filologia está a Edição Crítica de Textos que como primeira função vem através do estabelecimento do texto para chegar à perfeição do mesmo, penetra e transpõe o que no texto está concentrado, deduzindo algo que não vemos sem a investigação apurada e minuciosa. É a forma mais transcendente de realizar um trabalho filológico.
            Partindo deste ponto, a autora apresenta a separação de Lingüística  e da Literatura no século XIX, mas a partir do século XX, observa-se que outras ciências passam a auxiliar a Filologia, como a Antropologia, a Psicologia, a sociologia, a História, etc. Deste modo, já não poderemos separar a Lingüística, a Literatura e a Filologia por estarem interligadas pelo elo da linguagem. Assim, a Filologia se apresenta ramificada em: 1- Lingüística , Lingüística Descritiva e Lingüística Histórica e 2- Filologia Textual/Crítica Textual.
            Verifica-se após longos anos que a Filologia permanece a mesma ocupando-se da linguagem de várias maneiras e abrangendo inúmeras atividades, sempre respeitando a língua como “sagrada”, de acordo com a cultura e a civilização do povo a que pertence. Os documentos escritos por eles, passam por estudos quanto à fonética, morfologia, sintaxe e o léxico, tarefa essa realizada no plano lingüístico. Os temas, gêneros, tendências, diferentes correntes do pensamento e formas literárias diversas são analisados no plano literário. Percebe-se, assim, que a Filologia se ocupa do texto escrito para situar toda uma civilização no binômio espácio-temporal. Deste ponto em diante, define-se o campo da crítica textual em andamento cujas finalidades são: 1- o exame de toda a tradição manuscrita; 2- verificar o grau de autenticidade do texto; 3- estabelecer o texto original perdido. A crítica textual se apresenta em três modalidades: 1- Tradicional; 2- Moderna; 3- Genética. Quando estas três modalidades entram em ação obtém-se edições diferentes: a edição crítica, edição diplomática ou paleográfica, edição fac-similada, edição interpretativa, edição crítico-genética e edição genética. Todas estas modalidades estão bem definidas e exemplificadas de forma concisa e cuja compreensão se observa no texto da autora. No final, a autora apenas à exposição anteriormente apresentada como um apelo do qual todo docente ligado à disciplina Filologia Românica do Curso de Letras tende a fazer para tornar seus alunos multiplicadores de tão belo trabalho que é objeto da Filologia.
            Desta forma, conclui-se que o texto da Profª. Drª. Rosa Borges está bastante instrumentalizado teoricamente  para a conscientização, por parte dos docentes e discentes, do processo ensino-aprendizagem da linguagem em suas várias áreas. Congratula-se o seu olhar de devoção para o alcance cada vez maior do “amor pela palavra”.

FICHAMENTO – RESUMO OU CONTEÚDO: Introdução à Crítica Textual



Profª. Drª. Bárbara de Fátima.


CAMBRAIA, César Nardelli. Introdução à Crítica Textual. São Paulo: Martins Fontes, 2005. p.1-35.

I- Definição de crítica textual.
1.1  As modificações sofridas por um texto ao longo do processo de sua transmissão.

II- Objetivo.
2.1 Restituição da forma genuína dos textos.

III- A mobilidade dos textos.
3.1 Modificação exógena – derivam da corrupção material: tanto da matéria subjetiva (papiro, pergaminho, papel, etc.) quanto da matéria aparente (grafite, tinta, etc.). A corrupção do material: umidade, sol, fogo, insetos, vandalismo. Exemplos: Pergaminho Vindel e Pergaminho Sharrer.
3.2 Modificação endógena – derivam do ato de reprodução do texto em si, ou seja,  do processo de realização de sua cópia em um novo suporte material.
3.3 Diferença entre modificação exógena e modificação endógena:
3.3.1 As endógenas se originam de forma interna ao ato da cópia (depende seu responsável).
3.3.2 As exógenas se originam de forma externa, na medida em que não depende so seu realizador.
3.3    Subdivisão das Modificações endógenas.
3.4.1 Categorias autorais: são realizadas pelo próprio autor intelectual da obra.
3.4.2 Categorias não-autorais: são as que ocorrem sem a autorização nem o conhecimento do autor, ou seja, são fruto da atividade de terceiros.
3.4    Subdivisão das modificações não-autorais.
3.5.1 Modificações voluntárias – são aquelas que ocorrem por ato deliberado de quem reproduz o texto.
3.5.2 Modificações involuntárias – são aquelas que ocorrem por lapso de quem reproduz o texto (erro de cópia).

IV- Crítica Textual – restituição da forma genuína dos textos, isto é, de sua fixação ou estabelecimento.
4.1 Ecdótica – estabelecimento de textos e a sua apresentação, isto é, a sua edição: restitui a forma genuína de um texto, mas também os procedimentos técnicos para apresentar o texto ao público.
4.2 Filologia – Definições.
4.2.1 Estudo das sociedades e civilizações antigas – documentos e textos legados – língua escrita e literária como fonte de estudos.
4.2.2 Estudo rigoroso dos documentos escritos antigos e da sua transmissão para estabelecer, interpretar e ditar esses textos.
4.2.3 Estudo científico do desenvolvimento de uma língua ou de famílias de línguas – gramática histórica.
4.2.4 Estudo científico de textos, estabelecimento de sua autenticidade através da comparação de manuscritos e edições utilizando-se de técnicas auxiliares (paleografia, estatística para datação, história literária, etc.), especialmente para a edição de textos.
4.2.5 Ponto de vista etimológico – “amor à palavra”.
4.2.6 Friedrich August Wolf – “Estudo do que é necessário para conhecer a correta interpretação de um texto literário”.
4.2.7 Silva – “A arte, que trata da intelligencia, e interpretação crítica grammatical, ou rhetorica dos Autores, das antiguidades, historias, &c.”.
4.2.8 Leite de Vasconcelos – “(...) o estudo da nossa língua em toda a sua amplitude ... língua”.
4.2.9 Silva Neto e Carolina Michaëlis – “(...) o estudo científico... espírito nacional”.
4.2.10 Melo – “(... ) o estudo largo... contida”.
4.2.11 Bueno – “O conhecimento... literários (...)”.

V- Tarefas do Crítico Textual segundo Carvalho e Silva.
5.1 A definição do conceito, do objeto, do método e das finalidades da ciência e das diferentes épocas da sua evolução;
5.2 O estudo e classificação dos textos e das edições, e, nos casos de dúvida, a averiguação da sua autenticidade e a fundamentada identificação de textos apócrifos e de edições fraudulentas (contrafações);
5.3 O exame da tradição textual e da fidelidade das transcrições, cópias e edições;
5.4 A pesquisa da gênese dos textos, sem deixar de lado qualquer elemento (inclusive fragmentos textuais) que possa contribuir para as conclusões sobre o labor autoral;
5.5 A fixação de princípios que devem orientar o trabalho da reprodução e da elaboração de todos os tipos de edições de textos;
5.6 A aplicação de tais princípios e normas gerais a diferentes tipos de textos, tendo em vista os contextos histórico-culturais em que estão integrados;
5.7 O estabelecimento de normas gerais e de normas específicas para a conversão dos textos orais em textos escritos;
5.8 A indicação dos pressupostos filológicos para a boa realização da tradução dos textos;
5.9 A organização dos planos de publicação das obras avulsas ou das obras completas de determinado autor, apoiada em rigoroso levantamento de dados histórico-culturais e biobibliográficos e a formulação de normas editoriais para cada caso em exame;
5.10 A preparação de edições fidedignas ou de edições críticas, enriquecidas, sempre que recomendável, de estudos prévios, notas explicativas ou exegéticas destinadas a valorizar o labor autoral.

VI- Contribuições.
6.1 Recuperação do patrimônio cultural escrito de uma dada cultura.
6.2 Estudos lingüísticos – os textos escritos – corpus – fonte de dados para o conhecimento da língua.
6.3 Estudos literários – os textos escritos – são essenciais – literatura escrita – o crítico literário exerce sua função com base em um testemunho que reproduz a forma do texto que o autor lhe deu – sua forma genuína.

VII- Transdisciplinaridade.
7.1 Paleografia – é o estudo das escritas antigas. A finalidade é teórica quanto pragmática. A teórica – entende como se constituíram sócio-historicamente os sistemas da escrita.         A pragmática – capacitação de leitores modernos para avaliarem a autenticidade de um documento, com base na sua escrita, e de interpretarem as escritas do passado.
7.2 Diplomática – estudo de documentos (jurídicos). Documentos – toda notícia escrita de algum acontecimento.
7.3 Codicologia – consiste no estudo da técnica do livro manuscrito (do códice). História do manuscrito, investigação sobre a localização dos manuscritos, etc.
7.3.1 Relevância – para o crítico textual:
1- Fornece informações que permitem compreender algumas das razões pelas quais os textos se modificam no processo de sua transmissão (troca na ordenação das partes do códice pelos copistas);
2- São também utilizados mais pragmaticamente na descrição de códices (devem constar na edição de textos preservados em manuscritos).
7.4 Bibliografia – material – estudo da técnica do livro impresso.
7.5 Lingüística  - estudo científico da linguagem humana.
7.5.1 Na edição de textos – lingüística histórica – crítica textual prefere os textos do passado.

RESUMO: A Edição de Textos


Profª. Drª. Bárbara de Fátima.


SPAGGIARI, Bárbara; PERUGI, Mauricio. A edição dos textos. In: Fundamentos da Crítica Textual. Rio de Janeiro: Editora Lucerna, 2004. p. 15-27.

            A autora inicia o seu texto apresentado dados sobre a invenção da imprensa por Johannes Gutemberg no século XV. O que antes, no tempo dos gregos e romanos, era de natureza manuscrita passou a ser impresso com caracteres móveis.
            Para os conceitos de Codicologia e Paleografia temos que a primeira estuda os manuscritos ou códices definindo o suporte empregado, as dimensões do objeto, a sua formação, o seu conteúdo, as mãos que transcreveram o texto, a sua datação, etc. Esta disciplina envolve uma atenção minuciosa para que nenhuma informação sobre o texto em estudo se perca, além do mais apresenta também uma espécie de glossário ou terminologia para melhor definir seus termos técnicos. Desde a época do Antigo Egito a pessoa que transcrevia materialmente a obra era chamada de copista ou amanuense. Depois, este trabalho profissional passou a ser dos monges dos conventos medievais e dos amanuenses laicos; o trabalho amador era realizado por copista diletante. A segunda , ou seja, a paleografia apresenta-se como sendo uma disciplina complementar da codicologia que tem por finalidade o estudo dos caracteres gráficos antigos, examinando e catalogando as formas de escrita conforme a datação e o lugar de procedência; os fatores que influenciavam a escrita de um copista: tipo histórico, geográfico ou social, mudanças advindas da idade, do cansaço, da pressa, de doenças, etc.; as formas abreviadas para poupar espaço e a vontade de ganhar tempo.
            Quando o original é escrito pelo autor recebe o nome de autográfo, se for escrito por outra pessoa e sob o seu controle chamamos de idiográfo. A primeira cópia derivada do original recebe o nome de apógrafo, enquanto que antígrafo denomina a cópia tirada de outro exemplar.Antes do advento da imprensa, um texto era copiado várias vezes e a cada cópia o texto estava sujeito a alterações quanto à sua versão original (erros ou a introdução de alterações).
            Para tanto foi criada a disciplina Crítica Textual (ou Ecdótica) que tem por finalidade:
1- O exame de toda a tradição manuscrita;
2- Verificar o seu grau de autenticidade;
3- Estabelecer o texto original perdido.
            A tradição impressa não evitou que o texto saísse do prelo isento de erros, conforme a última vontade do autor. Várias alterações poderiam produzir-se: durante a composição do texto palavra por palavra, através da qual as provas eram corrigidas pelo autor ou pelos revisores e após a aplicação da tinta nos caracteres que eram impressos numa folha de papel ou de pergaminho. Este procedimento era demorado, além do que os caracteres eram móveis e passíveis de mudança de lugar, de se quebrar, desfigurando o texto. Exemplares da mesma tiragem que deveriam ser idênticos, não são, e também os intervalos de tempo entre uma e outra tiragem que observamos nas edições antigas. Outro ponto importante é que sem a vigilância do autor durante a composição e a impressão, nunca saberemos se o livro corresponderá ao original.
             A primeira edição impressa da obra (incunábulos) se chama “editio princeps” (edição príncipe ou princeps) que significa a primeira edição em absoluto.
            Hoje com a criação e introdução dos computadores, os procedimentos para a publicação de obras mudaram:
1- O autor prepara o texto para publicação, versão definitiva, revista e corrigida;
2- O texto digitado no computador é gravado em disquete e entregue ao editor;
3- O fotocompositor transpõe os dados do disquete na página do futuro livro com corpo (estilo tipográfico) e o seu formato (dimensões) predefinidos;
4- A forma gráfica pode mudar, mas a versão definitiva fica inalterada, visto que o fotocompositor efetua apenas operação de tipo formal e intervém sobre aspectos “externos” ao texto;
5- O editor apresenta as provas ao autor para que ele possa corrigir e rever mais uma vez;
6- O autor licencia e a obra sai em forma de livro ou de CD-rom;
7- O texto definitivo está pronto para divulgação (editio ne varietur).
            Quando o texto original não estiver disponível, a crítica textual se encarregará do estabelecimento do texto. A tarefa maior da crítica textual será a de reconstituir o original perdido baseada na tradição manuscrita e impressa, direta e indireta da obra, para tanto são utilizados critérios científicos e rigorosos. Estes critérios e as técnicas utilizadas evoluem com o tempo. Este trabalho foi primeiro realizado pelos filólogos alexandrinos do século III. a. C. Eles são os iniciadores desta tarefa apesar de muito rudimentar. A eles devemos:
1- Recolha e sistematização das obras;
2- Composição de vários compêndios, gramáticas e histórias literárias, etc.
             Outro momento importante da Filologia Antiga está nos períodos do Humanismo e da Renascença, durante a busca dos manuscritos de obras clássicas, os filólogos entraram em cena para editar os textos quando deles existiam redações diferentes. Mas, o critério por eles adotado não tinha por finalidade a reconstituição do original perdido. As edições baseavam-se em códices recentes, facilmente lidos sem problemas pelos tipógrafos, isto significou que o manuscrito era normalmente não fidedigno. Quando os filólogos apresentavam um texto já “aperfeiçoado”, polido e límpido, constituía a editio vulgata, que até o século XIX constituíram o texto príncipe de referência.
            Concluindo, a crítica textual figura no século XIX e ainda não acabou. A Filologia Moderna ou Crítica Textual baseia-se em métodos verificados e garantidos sob o ponto de vista científico. E estes métodos vão variar de país para país, de escola para escola.

RESUMO: A filología como ciencia del texto


Profª. Drª. Bárbara de Fátima.

AGUILAR, Rafael Cano. A filología como ciencia del texto. In: Introdución al análisis filológico. [s.l.]: Castalia, [199?]. p.13-30.


            A expressão análise filológica é de certa forma redundante com relação à Filologia que é uma ciência, cujo âmbito de trabalho são os textos escritos. a análise filológica é a maneira pela qual é possível a análise de textos sejam eles: textos lingüísticos ou textos literários.
            Em Grego ou Latim, a Filologia é traduzida como amor às letras e o filólogo, segundo R. Estienne (1539) o amante das letras. Várias são as disciplinas auxiliares da Filologia: Gramática, Rhetórica, Poesia e com as ciências auxiliares: História, , Antiguidade, etc.
            A Filologia em sua mais ampla acepção estuda e analisa a cultura e a civilização de um povo através dos documentos escritos por eles deixados. É uma ciência auxiliar da História ou de qualquer outra disciplina a partir do momento que seja necessário o conhecimento pertinente para tal interpretação textual, com um texto confiável e cujo trabalho direcionado à Filologia será o de fixar, reconstruir, criticar, etc. Os textos mais estudados desde as suas origens são os românicos. Com relação à língua, a Filologia une-se à Lingüística com a qual divide uma caminhada de encontros e desencontros.

1.1  Constituição histórica dos deveres filológicos.

            As origens da Filologia estão vinculadas ao termo “sagrado”, visto que os textos se figuram em sociedades antigas, sendo considerados verdades imutáveis e sábias. Assegurava-se a Filologia de guardar a língua escrita da corrupção e da destruição, ocasionada pelas mudanças das formas lingüísticas  que passaram a ser objetivos da exegese e da interpretação.
            A Filologia pode ser dividida em três momentos:
1- Lingüística Hindu (?séculos IV-III a.C. ?) – para explicar os textos religiosos, assim como as correntes filológicas hebréias e árabes. Os gramáticos alexandrinos (século II a. C.), com os poetas gregos, por exemplo Homero, a quem devemos a fundação da civilização européia da Filologia.
2- Idade Média – não se observa o amor pelos textos, nem a necessidade de glossários e comentários. Os estudiosos medievais davam valor aos textos escritos como fontes constantes da sabedoria, mas não como fontes de pesquisa/trabalho filológico, observando-se um estado lingüístico que necessitasse de fixação e explicação.
3- Humanismo Renascentista – está fundamentado na leitura e interpretação dos textos (clássicos, gregos e latinos) e do conhecimento do mundo contido nestes textos. Assim, encontramos Lorenzo Valla, romano que não apenas sistematizou a crítica lingüística dos testos, mas que a aplicou como uma arma para negar, por razões filológicas, qualquer validade da chamada “Doação de Constantino”.
            Do Renascimento, propriamente dito, temos a Filologia definida como, não apenas exegese e interpretação dos textos, mas crítica do texto falso ou deturpado. Mas, a Filologia não apenas se limitou ao mundo clássico, grego e latino: Nebrija e Erasmo levaram ou tentaram levar essa nova ciência ao estudo da Bíblia.

1.2  A Filologia nos séculos XIX e XX: direções distintas.
1.2.1 Filologia e história cultural.
            No século XX observa-se a definição de Filologia como sendo “a ciência que estuda a linguagem, a literatura e todos os fenômenos de cultura de um povo ou grupo de povos por meio de textos escritos”, como forma de reduzir este imenso campo de estudo a Filologia passa a se utilizar das ciências auxiliares, como por exemplo, a História.
            O autor volta a citar a herança do Humanismo renascentista filológico:
1- Filologia Clássica – tal qual hoje é conhecida surgiu no século XVIII ma Alemanha. Muitas vezes, no século XIX sinônima da Filologia, conservando seu interesse pela língua e pelas literaturas grega e latina, como também por suas criações conceituais na Física e na Mitologia, nas suas criações físicas na Arte e Arqueologia.
2- Filologia Hebraica e Árabe – estão mais perto em seus métodos da Filologia Clássica.
3- Filologia do Romantismo Alemão – em suas manifestações no mundo da linguagem (Herder, Schlegel, Humboldt) destacam a estreitas relação entre língua e história geral, em  especial a história cultural.
            O autor  R. Antilla voltou a pensar na Filologia como uma disciplina que estuda a linguagem para penetrar em uma cultura:
1- Decifrar os conteúdos textuais que revelam culturas desconhecidas;
2- situar a língua em seu contexto;
3- Permitir a reconstrução da sociedade;
4- Analisar lingüisticamente através da língua mundial;
5- Compreender mais claramente as mudanças semânticas, etc.
            Antilla também descreve as disciplinas Sociolingüística, Lingüística Antropológica, Psicolingüística, etc. como as Filologias Sincrônicas. Nos USA, observamos que a perspectiva da Antropologia Lingüística esteja mais voltada para a sincronia dos textos orais. Já Umberto Eco define a semiologia como “crítica da cultura”, uma filologia renovada.
1.2.2 Filologia e Lingüística.
            O autor apresenta as diferenças básicas entre a Filologia e a Lingüística:

FILOLOGIA
LINGÜÍSTICA
1- Disciplina histórica;
2- Limita-se ao estudo de apenas uma língua;
3- Surge com a Romanística;
4- Estuda o conhecimento da história política, social, cultural e literária dos povos que falaram ou falam as línguas românicas
5- Início: análise histórica e comparativa, da provençal dos trovadores medievais com o francês F. Raynouard (1816-1921).
1- Ciência natural;
2- Ocupa-se do maior número possível de línguas.

            Para muitos, a Filologia passou a ser sinônimo de lingüística histórico-comparativa. O próprio Saussure que separa a Filologia da Lingüística termina por igualar a filologia comparativa ou gramática comparada.

FILOLOGIA
LINGÜÍSTICA
1- Serve à Lingüística no sentido de caráter histórico;
2- Obtém e classifica os dados;
3- Analista reconstrutiva de textos.

1- Dar à Filologia as imprescindíveis referências que ajudem a fechar e diferenciar manuscritos, imaginar arquétipos, vincular zonas geográficas ou âmbitos cultuais.

1.2.3 Filologia e Literatura.
            O autor não acredita que se possa vincular a Filologia à ciência nem à história da literatura. Assim como não poderá estar vinculada somente aos textos literários. Não há uma necessidade entre Filologia e texto literário. Mas, desde o século XIX, já se encontra a relação da Filologia com os textos literários. Algumas correntes ou especialidades lingüísticas apresentam não somente vínculos de investigações em textos escritos, mas também com o texto literário.
            Segundo E. R. Curtins, a Filologia se distingue da História da Literatura, da Literatura Comparada e da Ciência da Literatura por ser uma técnica básica para todo o estudo sobre o texto literário, mas não o engloba.
            Por ser uma disciplina que se ocupa da análise de textos literários, a Filologia acaba tendo como principal missão de reconstituir os mesmos textos que investiga, chegando assim a identificar-se com a edição (crítica) de textos, que envolve o estabelecimento de textos (reconstituição da forma autêntica, restauração por meio de exame comparativo de diversas versões), na interpretação e colocação de notas e comentários (gramaticais, históricos, literários, geográficos, etnográficos, etc), assim como apresentação de um glossário, tabelas, etc.
            No século XIX utilizou-se o termo Ecdótica, mas só em 1926 foi estabelecido pelo francês Dom Henri Quentin. Este, estudo se ocupa das questões materiais, formais e gráficas que a análise filológica desconsidera.
            Quando a Filologia é definida como a análise crítica de textos, não podemos dissocia-la da Lingüística , porque na análise lingüística verificaremos: a classificação das variantes textuais mais antigas, determina o âmbito dialetal originário, a época provável do texto primitivo, etc. Surgiu, assim, o método de Lachmann que apresenta a análise das formas lingüísticas variantes que seguem a análise dos textos variantes: em seus próprios termos, os processos de exame e seleção, mostra a recensio dos textos existentes, constituindo, assim, uma atividade fundamentalmente lingüística. O método de Lachmann consiste em encontrar e reconstituir um arquétipo, o texto original, através da análise das cópias, cuja genética se mostra por meio de uma árvore genealógica (stemma codicum).
            Outro mecanismo que os lingüistas tentaram estabelecer, o indo-europeu primitivo, fonte de todas as línguas da família presentes na árvore genealógica de Schleicher. Também temos, segundo o autor, o método francês Bédier, que estuda a história de cada língua em relação com a história de quem as falam, este método concentra-se na edição de um dos manuscritos ou variantes e onde se faz as correções que se considerem oportunas. São chamadas “edições sinópticas”.

1.3  Análise Filológica e Lingüística Atual.
O autor define a análise filológica como a análise da língua para algo mais, podendo ser a inserção deste texto dentro da história cultural de uma comunidade ou a decisão sobre aspectos internos da história deste texto. O que caracteriza a análise filológica: sua perspectiva é sempre filológica, estuda a língua dos textos como reflexo e manifestação de um dado momento cultural de um povo. Já a análise lingüístico-filológica (análise realizada sob a perspectiva do filólogo) é sempre global: desde os aspectos fonéticos, passando por todos os aspectos gramaticais e léxicos, o pesquisador deverá se ater aos mínimos detalhes. Para o filólogo, um texto sempre remete a outros textos, para explicar a evolução da língua ou para recorrer a eles para se entender o texto que está sendo analisado.
            Observamos na análise da linguagem que a Filologia entra em contato com as modernas teorias lingüísticas, como a teoria da enunciação ou com a lingüística do texto (LT). A noção de texto na LT não é bem tradicional, está mais ligada à atividade comunicativa e não se limita ao texto escrito, ela tem fenômenos específicos e regras próprias de nível textual. Já a dimensão histórica, característica básica da Filologia não está presente nestas correntes lingüísticas atuais, assim elas invocam a Retórica ou a Estilística como antecedentes. O que a Filologia e as Teorias Lingüísticas têm em comum é a inserção do texto em seus contextos sócio-verbais, contextos estes cujos objetivos teóricos e metodológicos estão  A Filologia favorece estas teorias com suas formas interpretativa e explicativa.presentes em ambas.
            O autor apresenta o termo “comentário” do texto utilizado para o estudo da literatura e foi introduzido na Espanha, por F. Lázaro y E. Correa em 1957. O termo “comentário” é utilizado na análise lingüística do texto e os de caráter histórico com o título “comentários filológicos-lingüísticos” do texto.
Características dos comentários dos textos:
1- É uma atividade complementar, de caráter prático;
2- Mostra-se de forma direta os fenômenos evolutivos, da história da língua;
3- O texto , neste caso, não é apenas um instrumento auxiliar cuja função é somente apresentar em sua forma primária os fenômenos textuais ocorridos em uma situação real;
4- O texto é visto como uma unidade lingüística dotado de sentido próprio, com diversos graus de coerência e coesão e em uma determinada situação: unidade que vai explicar os elementos, relações, etc;
5- O texto na Lingüística Histórica será um pretexto para oferecer uma série de mudanças na língua: fonéticos, morfossintáticos, léxicos, etc.
            Segundo  o autor, o “comentário” (filológico) – lingüístico acadêmico se limita como conclusão de uma busca de dados, a época aproximada de um texto com dados que se pode documentar, mas isto não é a única tarefa que um filólogo pode desempenhar com um texto, mas é um bom início na aprendizagem.
            O pesquisador irá, através do texto, além do acúmulo de dados, penetrar na estrutura total  e na sua organização sintática e léxica de seu conteúdo, partindo da organização macrotextual para a microtextual. Na sintaxe do período no qual está inserido o texto, estuda-se as orações e com as relações léxicas textuais, observando cada palavra em particular, teremos o tipo de discurso e de enunciado lingüístico.
            A seleção dos textos para análise exigirá a forma da gramática histórica, para aqueles que apresentam maior intensidade das mudanças, nos fenômenos lingüísticos dos textos breves de todas as épocas. Também não é fácil esta seleção. Devemos observar a forma externa dos textos: o fac-símile ou a transcrição paleográfica (com a pontuação original). Afinal, é o contato autêntico do filólogo com o texto real, físico.